Archive for June, 2011

Sem graça e quase sem redimento, letras do Tesouro Americano têm atraentes

Matt Phillips

The Wall Street Journal

Pode acrescentar à lista dos investimentos mais cobiçados este ano nos Estados Unidos, junto com ações de novas empresas de internet e metais preciosos, a simplória letra do Tesouro americano.

A oferta reduzida e a demanda crescente estão causando um aperto no mercado para as letras de três anos, que estão entre os investimentos considerados mais seguros, e isso tem levado o mercado a subir, fazendo com que o rendimento diminua bastante.

[Tesouro]

Getty Images

No momento, as letras do Tesouro americano rendem 0,05% ao ano, depois de terem chegado este mês a praticamente 0,01%. Isso significa que letras de três meses com valor de face de US$ 1 milhão compradas na sexta-feira renderiam ao investidor apenas pouco mais de US$ 120 no vencimento. Parece nem valer a pena, mas novas regras estão tornando mais difícil para alguns investidores aplicar em outros ativos na busca por rendimentos mais altos.

Eles disputam uma oferta de letras, ou T-bills, que encolhe, em parte por causa do esforço do Tesouro americano de manter a dívida pública do país dentro do limite legal, que o Congresso até agora se recusou em aumentar.

Em consequência, a cotação da dívida pública de curto prazo dos EUA está em alta, o que faz com que os rendimentos, que se movem no sentido oposto, caiam a alguns dos mais baixos níveis desde a crise financeira. Eles caíram de aproximadamente 16 pontos-base, ou 0,16%, no fim de janeiro para seu mais baixo nível desde o fim de 2009.

As T-bills têm sido procuradas ativamente tanto em momentos de euforia — como a que levou as ações do site de contatos profissionais LinkedIn Corp. às alturas na semana passada — como de preocupação — como na queda generalizada das bolsas na segunda-feira. Normalmente, os papéis de curto prazo do Tesouro americano sobem em épocas de grande temor. Na última vez em que as letras estavam tão baixas, no fim de 2009, e durante a crise financeira, quando os rendimentos chegaram por um breve período a ser negativos, os investidores usaram os títulos públicos como meio de proteger seu patrimônio.

Há varios motivos para os baixos rendimentos: menos letras têm sido emitidas, novas regras forçaram os bancos nos EUA a comprar mais títulos de curto prazo do Tesouro e há uma desaceleração do crescimento econômico.

“Se as pessoas estão dispostas a aceitar rendimento zero (…) isso diz algo”, diz George Gonçalves, diretor de estratégia de juro nos EUA da Nomura Securities International em Nova York. “Parte disso é a questão macro, a crença de que as taxas vão continuar assim por um bom tempo.”

Depois de chegarem ao auge antes da temporada de imposto de renda, as vendas governamentais de letras do Tesouro normalmente diminuem nesta época do ano, quando a receita tributária enche seus cofres. Mas com o debate sobre o aumento do limite de endividamento se arrastando em Washington, o Departamento do Tesouro americano tem alterado a forma como capta recursos e reduzido algumas captaçõesref.

O Tesouro deixou que seu Programa de Financiamento Suplementar, de US$ 200 bilhões, encolhesse para US$ 5 bilhões. Naquele programa, instituído durante a crise financeira, o Tesouro vende T-bills ao público e guarda o dinheiro no Federal Reserve, o banco central.

O Tesouro não fez ainda nenhuma mudança em sua programação regular de leilões de dívida. Algumas mudanças “devem ser esperadas” caso o limite de endividamento não seja aumentado por volta de 2 de agosto, afirma.

“Simplesmente não vimos o tipo de oferta de que necessitaríamos ou esperaríamos para impedir que as taxas caiam”, diz Ian Lyngen, estrategista de títulos públicos do CRT Capital Group LLC de Stamford, Connecticut. “Diante dos padrões históricos, essas taxas são extremamente baixas para as letras.”

Economistas da Jefferies Fixed Income estimam que desapareceram US$ 167,5 bilhões em dívida pública de curto prazo do mercado de US$ 1,7 trilhão este ano, quando os papéis venceram. No mesmo período de 2010, a quantidade se expandiu em US$ 41 bilhões. “Achamos que não haverá alívio no curto prazo”, escreveram economistas da Jefferies numa nota de análise publicada semana passada. “A oferta de letras deve continuar a diminuir.”

Analistas de renda fixa do J.P. Morgan Chase & Co. estimam que US$ 155 bilhões em T-bills vão desaparecer do mercado em maio e junho, quando vencerem.

No lado da demanda, uma mudança de regra da Federal Deposit Insurance Corp., a agência de seguro-depósito do governo americano, deixou os bancos menos dispostos a fazer captações de curto prazo usando instrumentos conhecidos como acordos de recompra, ou “repos”, dizem participantes do mercado. Esses empréstimos são importantes investimentos para os fundos de curto prazo. Com menor demanda por repos dos bancos, os fundos de curto prazo estão transferindo mais dinheiro para os títulos do Tesouro, o que aumenta ainda mais a demanda pela dívida pública de curto prazo.

Ao mesmo tempo, os fundos de curto prazo estão se ajustando a uma onda anterior de mudanças de regulamentação que tinham o objetivo de aumentar a segurança deles. As novas regras, baixadas pela comissão de valores mobiliários americana no ano passado, exigem que os fundos detenham uma porcentagem maior de ativos mais líquidos de alta qualidade — normalmente papéis de curto prazo do Tesouro.

Na segunda-feira, o Tesouro americano leiloou US$ 27 bilhões em letras de três meses com um rendimento de 0,055% e relativamente forte demanda dos investidores.

“Essa é uma demonstração de como o mercado se sente em relação ao rendimento”, diz Thomas Simons, economista de mercado monetário da Jefferies & Co. Ele acrescenta que o fato de um par de pontos-base ser capaz de persuadir os compradores sugere que eles não esperam que os rendimentos subam muito mais no curto prazo. “Essas diferenças têm um impacto maior no mercado”, diz.

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June 28 2011 | Uncategorized | Comments Off

Prepare-se, vem aí o yuan

O muro está começando a rachar.

Durante anos, a China dificultou o fluxo de capital que entra e sai de sua economia, a segunda maior do mundo. Agora, o governo de Pequim está levando adiante uma campanha para colocar o yuan no palco mundial — e começam a surgir brechas naquela imponente barreira financeira.

Um yuan mais amplamente usado no comércio e investimento internacionais pode em algum momento desafiar a supremacia do dólar, corrigir alguns dos desequilíbrios que marcam a economia chinesa e mundial e forçar os perdulários Estados Unidos a viverem de acordo com seus meios.

Brian Stauffer

FECOVER

FECOVER

Não será uma transição fácil. Há poderosos interesses na China que estão satisfeitos com o status quo e tentarão frear qualquer iniciativa de reforma. Mas as mudanças que a China fez até agora ganharam força interna e internacionalmente — e podem acabar sendo fortes demais para se resistir a elas.

Durante mais de uma década, a fechada conta de capitais da China foi um elemento marcante da economia mundial. Ela isolou o país dos fluxos de capitais estrangeiros, permitindo que passasse ilesa pela crise financeira asiática de 1997 e deixando seus bancos incólumes ao quase colapso do sistema financeiro americano em 2008.

Igualmente importante foi que, ao negar aos mercados de câmbio um papel na definição da cotação de sua moeda, o governo pôde manter o valor do yuan num nível artificialmente baixo — sustentando uma expansão de 30 anos nas exportações. Como os poupadores chineses não podem aplicar seu dinheiro no exterior, os bancos também conseguiram oferecer-lhes baixos juros, o que manteve o custo do dinheiro para a indústria em níveis bem baixos e sustentou um surto de investimentos.

Tome-se o caso de Shenzhen — uma cidadezinha pesqueira em 1979, uma metrópole de 14 milhões de habitantes em 2011, erguida ao redor do quarto porto mais movimentado do mundo. O baixo custo de capital subsidiou a construção de infraestrutura de transporte e energia, fábricas e linhas de produção. Um yuan subvalorizado, combinado com o baixo custo da mão de obra, permitiu às empresas cobrar preços mais baixos que as rivais estrangeiras.

Mas a manipulação do câmbio e a repressão do juro tem seu custo. O capital barato resultou num excesso de capacidade no setor industrial e em bolhas no mercado imobiliário. A gestão do câmbio tendo superávits comerciais produziu o acúmulo de gigantescas reservas internacionais — US$ 3,04 trilhões que a China se vê obrigada a aplicar sob a forma de empréstimos a custo baixíssimo para os EUA.

Uma das primeiras rachaduras na restritiva política chinesa ocorreu em julho de 2009, com um plano para permitir a liquidação de transações de exportação e importação em yuans. O uso internacional mais amplo do yuan tem o propósito de reduzir os custos de transações para os importadores e exportadores chineses, proteger contra o risco de uma queda no financiamento de comércio exterior em dólares — como ocorreu no fim de 2008 — e erguer a bandeira de uma potência econômica mundial ascendente.

No primeiro trimestre de 2011, US$ 55 bilhões do comércio exterior chinês — 7% do total — foram liquidados em yuans. No fim de abril de 2011, os depósitos em yuan no sistema bancário de Hong Kong haviam crescido para 511 bilhões, ou US$ 79 bilhões, nove vezes o total de julho de 2009, quando o programa para compensação em yuans foi lançado.

As restrições à saída de dinheiro também estão sendo retiradas. No mês passado, o governo de Xangai anunciou planos para permitir que os moradores da cidade façam investimentos no exterior.

Mas uma abertura mais substancial da conta de capitais vai exigir progresso em duas áreas: uma taxa de câmbio que esteja mais próxima do valor justo e juros definidos pelo mercado. O yuan ainda está subvalorizado, mas dois fatores sugerem que está muito mais próximo do valor de mercado do que costumava: a divisa teve, desde 2005, uma valorização real de 20% diante de uma cesta de moedas, e o superávit de conta corrente da China caiu para 5,2% do produto interno bruto em 2010, ante 10,1% em 2007.

Se o yuan está perto do valor justo, o governo chinês poderá afrouxar os controles sobre a conta de capitais com menos chance de provocar entradas de dinheiro especulativo desestabilizadoras.

Os juros chineses, de sua parte, continuam a ser definidos pelo governo. Mas o Banco Popular da China, o banco central, está tentando mudar isso a partir de um exemplo na história econômica do país.

No começo da era da reforma, o governo chinês designou Shenzhen como zona econômica especial, onde as políticas de mercado poderiam ser testadas antes de expandidas para o resto do país. Hong Kong vai servir como um local parecido de experimentação para a reforma do sistema financeiro do país. O rendimento dos papéis de dívida expressos em yuans que são negociados em Hong Kong já é definido pelo mercado, em vez de seguir o juro referencial do banco central.

De acordo com o Royal Bank of Scotland, o valor dos papéis de dívida em circulação nesse mercado, conhecido como “dim-sum”, subiu de US$ 5,3 bilhões no fim de 2009 para o equivalente a US$ 15,8 bilhões. O McDonald’s Corp. e a Caterpillar Inc. estão entre as empresas que recorreram ao novo mercado em busca de financiamento.

O aumento na liquidação de transações comerciais e o desenvolvimento de Hong Kong como um centro financeiro do yuan se reforçam mutuamente. A maior quantidade de transações compensadas em yuan aumenta o pool de liquidez em Hong Kong, o que encoraja o desenvolvimento de mais instrumentos de investimento em yuan, e a maior variedade de formas de investimento reforça o incentivo para o uso do yuan na liquidação das transações de comércio exterior.

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June 22 2011 | Uncategorized | Comments Off

Cresce apoio a plano para troca da dívida grega

Bruxelas

[1greece]

Associated Press

Cresce o apoio entre as principais autoridades econômicas da Europa a um plano de proposta de troca de dívida que resultaria num atraso do pagamento aos credores do setor privado, dizem autoridades da zona do euro.

Mas essa estratégia — que provavelmente desencadearia a primeira moratória de um país da zona do euro — enfrenta forte oposição do Banco Central Europeu, que teria de ser uma parte crucial do plano, e terá batalhas difíceis numa série de reuniões de políticos este mês.

O plano foi discutido durante uma reunião de ministros econômicos da zona do euro em Viena na semana passada, e autoridades da região disseram no sábado que havia um acordo preliminar para concessão de mais financiamento à Grécia — e que a ajuda viria provavelmente sob a condição de que os credores do setor privado também arcassem com uma parte do fardo.

A reunião em Viena contou com a participação dos principais funcionários dos ministérios econômicos da Europa. Eles são personagens centrais dos bastidores, mas são seus chefes e líderes europeus que vão lutar as batalhas políticas e tomar a decisão final.

Os governos chegaram à conclusão de que a Grécia, que recebeu um pacote de empréstimos de 110 bilhões de euros (US$ 161 bilhões) em 2010, vai precisar de mais dinheiro já no segundo trimestre do próximo ano. A proposta de troca de dívida, liderada pela Alemanha com forte apoio de várias outros países da zona do euro, aliviaria o aperto de caixa da Grécia — e também diminuiria a quantia de recursos extras que a Alemanha e os outros países teriam de liberar, de acordo com autoridades da região.

De acordo com o plano, os 17 governos da zona do euro pediriam aos credores da Grécia a troca da dívida prestes a vencer por títulos com prazo mais longo, um processo que poderia começar já em julho se houvesse aprovação dos ministros da fazenda ao novo pacote de ajuda à Grécia na reunião de 20 de junho, segundo autoridades.

Um documento do Ministério de Fazenda da Alemanmha, publicado no jornal alemão “Die Welt” e confirmado por uma autoridade da zona do euro, propõe uma extensão de sete anos para o vencimento da dívida.

Os funcionários públicos em Viena disseram haver esperança de que a oferta de troca de dívida possa adiar cerca de 30 bilhões de euros em pagamentos da Grécia ao longo de três anos — compensando parcialmente, na prática, o dinheiro extra de socorro.

O resgate da Grécia é bastante impopular na Alemanha e em países com situação fiscal mais sólida, e as autoridades discutem há meses um meio de resgatar a Grécia que seja palatável para o público e os parlamentos.

Jogar a Grécia numa moratória — ainda que por pouco tempo — é um passo difícil, e o plano estaria sujeito à aprovação pelos ministros de fazenda e em último instância pelos líderes dos próprios países num encontro ainda este mês. A França, por exemplo, tem sido bem cautelosa em causar perdas aos credores privados, e mesmo autoridades na Alemanha admitem que o acordo será difícil de aprovar. Será preciso ter bons atrativos para convencer os credores a aceitar uma troca. (Autoridades dizem estar confiantes de que, mesmo que uma troca de dívida seja vista como moratória pelas agências de classificação de risco, podem estruturá-la de maneira a evitar ser um “evento de crédito” que acionaria os contratos de swap de crédito.)

Um dos principais obstáculos será o Banco Central Europeu, que tem pública e firmemente se oposto a prejudicar os bancos ou outros credores, por medo de que grandes perdas com a dívida da Grécia provoquem uma crise do setor bancário. Um alto representante da Alemanha disse na semana passada que se o BCE vetar a extensão do vencimento, os governos terão poucas alternativas a não ser emprestar dinheiro para a Grécia com um envolvimento mais fraco dos credores privados.

A Grécia tem uma grande quantia de títulos de longo prazo — mais de 14 bilhões de euros — que vencem em março de 2012. Dezenas de bilhões de euros mais vão vencer nos próximos anos.

A dívida a vencer e os persistentes déficits públicos da Grécia deixaram o país no buraco. Os 110 bilhões de euros liberados pelos países da zona do euro e pelo Fundo Monetário Internacional em maio do ano passado cobrem apenas parte das necessidades de financiamento da Grécia em 2012 e em 2013. Esperava-se que a Grécia fosse capaz de captar com dívida de longo prazo nos mercados no ano que vem; agora isso parece praticamente impossível.

Por isso, pelo plano, os governos vão emprestar mais dinheiro à Grécia, que será financiado pelo Mecanismo Europeu de Estabilização Financeira (EFSF, na sigla em inglês), o fundo de resgate soberano da zona do euro, disseram as autoridades.

Em fevereiro, a União Europeia e o FMI estimaram que a Grécia precisaria de 44 bilhões de euros em financiamento de longo prazo do começo de 2012 até o primeiro semestre de 2013.

As autoridades da zona do euro não discutiram precisamente quanto poderia ser liberado em novos financiamentos pelo EFSF e pelo FMI.

Para que uma troca de dívida funcione, os credores terão de ser persuadidos a aceitar os novos termos — não é uma tarefa fácil.

Há várias opções em discussão. Uma delas, disseram autoridades, é que apenas os novos títulos gregos sejam aceitos pelo BCE como garantia de empréstimos; os antigos seriam recusados. Isso exigiria, claro, que o BCE aceitasse o plano. O banco central é independente dos governos da zona do euro.

A estrutura da proposta de troca de dívida sugere que é muito provável que ela seja considerada como uma moratória pela Standard & Poor’s, que explicou sua metodologia num relatório de sexta-feira. A S&P informou que, para emissores com a mesma nota da Grécia, B, uma troca de dívida “voluntária” seria provavelmente uma moratória se os credores receberem títulos com termos menos favoráveis do que os disponíveis no mercado secundário. O título da Grécia de dez anos tem um retorno de 15% no mercado secundário, e os papéis de dois anos pagam mais de 20%.

Autoridades dizem que a dívida trocada não será tão favorável.

(Colaboraram Marcus Walker, de Berlim, e David Gauthier-Villars, de Paris)

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June 12 2011 | Uncategorized | Comments Off

Preço do óleo de cozinha preocupa consumidor chinês

James T. Areddy

The Wall Street Journal, de Xangai

Hoje em dia, Liu Chuansheng prospecta nervosamente cinco lojas diferentes antes de comprar óleo de cozinha, num exemplo de como a súbita alta no preço do ingrediente mais vital da culinária chinesa está perto de causar uma crise nacional.

Numa sexta-feira recente, este homem calvo de 33 anos, que opera com a mulher uma barraquinha de café da manhã, empurrava o carrinho num corredor de um supermercado da C.P. Lotus Corp. no norte de Xangai, atento aos preços. Em segundos, sua mulher esvaziou a prateleira dos últimos 11 garrafões do óleo de soja “Cinco Lagos” da Cofco Ltd., o mais barato, por cerca de 47,90 yuans, ou cerca de R$ 12, por cinco litros.

No caixa, Liu dividiu a compra de R$ 130 em três partes para se esquivar do máximo permitido pela loja, de quatro garrafas, e também da proibição governamental de acumular o produto com fins especulativos. Para transportar as provisões para a venda do casal, Liu colocou duas garrafas na cesta de sua motoneta elétrica azul e equilibrou outras nove na plataforma. A mulher carregou a última nas costas.

O ganha-pão de Liu também se equilibra precariamente. Ele reclama que seus custos com óleo de cozinha subiram 27% em 2010.

[óleo]

A alta dos alimentos ajudou a impulsionar o índice de preços ao consumidor da China para 5,1% em novembro, o nível mais alto em dois anos, e em nenhum lugar a pressão foi mais sentida que no óleo de cozinha, mais vital para a culinária do país que o arroz. A alta do óleo de cozinha cria uma batalha diária para os chineses de baixa renda. E, embora os alimentos representem apenas um terço do IPC, respondem por cerca de 75% da alta recente no índice.

Problemas como esses nos preços são a principal razão para o Banco do Povo da China, banco central do país, ter aumentado os juros duas vezes nas últimas dez semanas, mais recentemente no Natal. No dia seguinte, o premiê Wen Jiabao respondeu a perguntas de ouvintes da rádio estatal preocupados com a inflação.

Segundo um relatório divulgado sábado, o Índice de Gerentes de Compras da China, oficial, caiu para 53,9 em dezembro, ante 55,2 em novembro. O economista Liu Ting, do Bank of America-Merrill Lynch, alertou que o índice ainda “está bem alto” e as autoridades chinesas “terão de tolerar uma inflação relativamente alta nos próximos anos”.

Os imóveis na China já encareceram há tempos e uma variedade crescente de preços parece estar acompanhando-os. A Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma anunciou no fim de dezembro uma alta de 3,77% na gasolina no varejo, para o equivalente a R$ 1,50 o litro, culminando numa alta de 11% no combustível em 2010.

Mas o principal choque enfrentado pelos chineses está no fogão, em vez de na bomba de gasolina. Num país em que poucas cozinhas têm forno, o óleo de cozinha é tão valioso que um garrafão dele é considerado até um presente apropriado.

Receitas chinesas como a carne frita e o peixe no vapor precisam do óleo, explica o famoso chef Martin Yean. “Na culinária chinesa, a maioria dos pratos usa óleo”, disse ele numa entrevista ao Wall Street Journal.

O preço do óleo de soja no atacado subiu 23% ano passado até o início de dezembro, para cerca de US$ 1.451 a tonelada, com a maior parte da alta concentrada em julho, segundo a firma de pesquisa de mercado Shanghai Pansun Information & Technology Co.

É uma tendência com um potencial explosivo. Três anos atrás, quando o preço do óleo também estava subindo, três pessoas morreram pisoteadas e 30 outras ficaram feridas durante uma promoção que oferecia desconto de R$ 2,50, ou 20%, em garrafões de óleo com cinco litros na cidade de Chongqing, no oeste do país. A tonelada chegou a US$ 2.009 no início de 2008, segundo a Pansun.

Na loja Lotus em Xangai, os compradores pareciam realmente estar escolhendo. Vários namoravam os garrafões com o símbolo do peixe da marca mais famosa da China, a “Arawana”, produzida pela Wilmar International Ltd., de Cingapura, mas reclamavam do preço de 52,90 yuans, ou R$ 13.

Entre eles estava uma jovem de jaqueta vermelha que aceitou a sugestão do pé direito do marido, que ele usou para apontar a marca da Cofco, R$ 1 mais barata. Ela pegou dois garrafões — mas devolveu um, explicando que seu salário de faxineira é pouco e ela tem uma filha de dez anos para criar.

Nas onipresentes lojinhas de óleo de cozinha nas vizinhanças chinesas, a pressão está aumentando. Na loja de óleo da família Wang no bairro Putuo, em Xangai, alguns clientes compram apenas o suficiente para uma refeição. Não muito diferente do que ocorre nos postos de gasolina ou poços comunitários, as pessoas põem os garrafões de vidro ou galões de plástico embaixo de uma torneira de óleo suja. Eles chegam de moto ou a pé e tentam barganhar, mas são informados que o preço é 10 yuans por quilo, sem descontos.

Riscos de giz num tanque de óleo contabilizam as compras a crédito e espelham a alta do custo: “Um cara de Shandong me deve 30 yuans” e “Sr. Huang comprou 490 yuans em 6 de dezembro”.

Nas últimas semanas, o governo tentou debelar boatos de que o óleo de cozinha está em falta leiloando milhares de toneladas das reservas estratégicas do país em Xinjiang e Shandong. A agência nacional de planejamento declarou que o suprimento “está completamente garantido”. Em novembro, o governo chinês ordenou que os maiores produtores congelassem o preço de varejo até março e também quintuplicou a multa para quem conspirar para aumentar o preço, para 5 milhões de yuans, ou US$ 750.000.

No momento, as medidas parecem ter conseguido conter a alta dos óleos comestíveis. Mas um produtor de médio porte em Xangai diz que elas também estão desestimulando a produção. O gerente-geral da empresa, que pediu anonimato, disse que normalmente ele estaria elevando a produção ao máximo no Ano-Novo Lunar, no início de fevereiro, mas desta vez decidiu desativar metade da fábrica.

Seu armazém está lotado com 20.000 caixas de óleo que ele avalia em US$ 600.000. Alguns mostram data de fabricação em 23 de novembro, na época em que o congelamento foi estabelecido e um importante distribuidor varejista cortou os pedidos pela metade. O gerente diz que o comentário geral do setor é que os preços vão voltar a subir em março.

Qualquer problema que surgir na indústria chinesa de óleo de cozinha terá repercussões amplas. Em 2009, segundo a Nielsen Co., os consumidores chineses gastaram com óleo comestível 28 bilhões de yuans, ou US$ 4,2 bilhões, o terceiro maior gasto do país com alimentos industrializados depois do iogurte e do leite. Cerca de metade do mercado é de óleo de soja e boa parte é importada.

A soja é a maior exportação americana para a China: US$ 9,19 bilhões em 2009, mais que o valor combinado das exportações de semicondutores e plásticos, segundo dados do governo dos Estados Unidos. Impulsionada pela China, a exportação americana de soja deve bater recorde no ano encerrado em 30 de setembro, chegando a 1,59 bilhão de bushels, ou cerca de 43 milhões de toneladas, informou o Departamento de Agricultura num relatório em dezembro. Mas o apetite dos esmagadores chineses oscila amplamente, e eles também importam colza, sementes de girassol, milho e óleo de amendoim de vários países como Argentina e Ucrânia. A demanda chinesa também fez dos grãos de soja a segunda maior exportação brasileira para a China de janeiro a novembro de 2010, com US$ 7,13 bilhões, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. O óleo de soja ficou em sexto, com US$ 780 milhões.

O óleo de cozinha gera cada vez mais preocupação em Liu e a mulher, cujo faturamento diário de R$ 175 da minúscula barraca de café da manhã em Xangai sustenta os dois filhos deles, que vivem no interior do país na província natal do casal, em Shandong. Apesar do alta no preço do óleo de soja, Liu treme só de pensar em aumentar os 18 centavos que cobra por seu pão doce. “A clientela sumiria”, diz ele.

(Colaborou Julie Zhu)

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June 09 2011 | Uncategorized | Comments Off

Crise enxuga empresas nos EUA mas engorda lucros

Scott Thurm e Joe Light

The Wall Street Journal

Empresas americanas têm conseguido se recuperar bem da recessão e registrar lucros altos, resultado da agressiva reestruturação de suas operações, realizada para sobreviver com faturamento menor e futuro incerto.

Uma análise do Wall Street Journal constatou que empresas integrantes do índice Standard & Poor’s 500 divulgaram lucro de US$ 189 bilhões no segundo trimestre, 38% a mais que no mesmo trimestre de 2009 e o sexto maior lucro trimestral delas em toda a história, sem ajustar pela inflação.

Enquanto companhias começam a divulgar resultados para o terceiro trimestre, encerrado há poucos dias, a expectativa é que o forte crescimento continue, embora num ritmo menor, segundo a S&P.

Para todas as empresas americanas, o Departamento de Comércio dos Estados Unidos calcula que o lucro no segundo trimestre, depois dos impostos, cresceu para uma total anualizado de US$ 1,2 trilhão no segundo trimestre, 2,9% maior que no primeiro e 25,3% maior que um ano antes. A taxa anualizada é a mais alta já registrada, embora não compute a inflação.

Os dados indicam que as grandes empresas se recuperaram da crise muito mais rapidamente e com muito mais saúde que o resto da economia, o que ajudou a impulsionar a bolsa este ano. Para conseguir essa expansão dos lucros, as empresas demitiram milhares de trabalhadores, fecharam divisões menos lucrativas, transferiram atividades para regiões mais baratas e reestruturaram seus processos.

[Starbucks]

Getty Images

A Texas Instruments Inc. decidiu fechar uma divisão que fazia processadores para celular. A Electronic Arts Inc. cortou pela metade o número de lançamentos de novos jogos. A Starbucks Corp. fechou 648 lojas nos EUA e modificou procedimentos para aumentar a eficiência. A Coca-Cola Co. usou sua escala para forçar reduções nos custos das garrafas e das tampas. Todas essas empresas divulgaram lucro frente a 2008, mesmo com as vendas estagnadas ou em declínio.

Apesar dos lucros polpudos, não se espera que os executivos aumentem as contratações no curto prazo ou invistam em novos produtos e máquinas tão cedo. As empresas geralmente contêm as despesas até dois anos após uma recessão, e daí investem à medida que a demanda estabiliza, disse Ed Yardeni, diretor-superintendente da Yaderni Research, uma consultoria de economia e de mercado financeiro. Ele e outros preveem que os gastos devem se recuperar mais lentamente desta vez.

“A gente tem se concentrado em mudanças permanentes que não poderão ser retiradas quando as vendas melhorarem”, disse John Riccitiello, diretor-presidente da produtora de videogames Electronic Arts, sediada em Redwood City, Califórnia.

[Ganancias]

Embora o lucro das empresas do S&P 500 no segundo trimestre deste ano tenha sido 10% maior que o do mesmo período em 2008, segundo a análise do WSJ, o faturamento foi 6% menor. Isso significa que as empresas guardaram quase 8,4 centavos para cada dólar vendido no trimestre, enquanto um ano antes conseguiram ficar com menos de 7 centavos por dólar de venda.

Grandes empresas americanas que obtêm a maior parte de seu faturamento no exterior devem ter alta de receita muito mais forte nos próximos trimestre do que aquelas mais focadas no mercado interno, por causa da contínua relutância dos consumidores em comprar.

Na Coca, as vendas norte-americanas responderam por 26% do faturamento do segundo trimestre, mas por apenas 18% do lucro operacional do período. A fabricante de bebidas disse que as vendas de produtos Coca subiram 5% no mundo todo, mas apenas 2% na América do Norte.

De maneira geral, contudo, a alta de lucro não foi puxada pelas vendas fora dos EUA. Entre as empresas do S&P 500 que divulgaram esse dado, o faturamento em outros países caiu mais do que em casa nos últimos 12 meses, segundo a S&P 500.

Mas executivos trouxeram os custos na rédea curta. “As empresas não estão investindo muito, só na manutenção obrigatória”, disse Howard Silverblatt, analista sênior de índices da Standard & Poor’s.

A Electronic Arts cortou as despesas nos últimos dois anos, principalmente para diminuir a oferta de produtos. No ano fiscal encerrado em junho de 2009, a EA lançou mais de 70 jogos. No ano fiscal a terminar em 2011, planeja lançar menos de 40 e se concentrar em jogos populares como Madden NFL e Fifa Soccer, tradicionalmente seus maiores geradores de receita.

Com menos jogos para lançar, a EA baixou para US$ 275 milhões os custos de pesquisa e desenvolvimento no segundo trimestre, ante US$ 356 milhões no mesmo período de 2008. A EA também demitiu 2.000 dos 9.800 empregados que tinha e transferiu outros para a China, a Índia e o Canadá. Juntas, as medidas ajudaram a empresa a registrar lucro de US$ 96 milhões, ante prejuízo de US$ 95 milhões dois anos antes.

“O custo humano de demitir sempre é doloroso, mas, estranhamente, os problemas econômicos nos ajudaram a criar uma empresa mais forte”, disse Riccitiello. “Não é só cortar a P&D. É focar a P&D de uma maneira mais inteligente.”

(Colaborou Timothy Aeppel.)

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